Dona Ana, uma líder comunitária

Dona Ana foi uma liderança e uma referência de trabalho que extrapolou em muito os limites de sua comunidade rural, o Mocambo, no município de São Francisco, no Norte de Minas. Tive a alegria de conhecê-la, de merecer sua amizade e a oportunidade de trabalhar com a sua capacidade de liderança e mobilização comunitária. Dona Ana lutou uma vida inteira pelas demandas, conquistas e direitos das populações rurais.

Com dona Ana e as demais famílias do Mocambo, e juntamente com os colegas e profissionais da Emater-MG, implementamos na região do semiárido de Minas um grande programa social para a agricultura familiar, levando água tratada para a casa de milhares de famílias em comunidades dessa região. Mas ainda estão sem esse direito básico de cidadania milhares de famílias rurais, apesar de tantos esforços feitos nesse sentido.

Essas lembranças me vêm agora, quase 15 anos depois do primeiro encontro que tivemos com dona Ana, nos alertando a todos que trabalhamos com a agricultura familiar que essa situação precisa ser superada, com urgência. Em nosso Estado e pelo Brasil afora, sobretudo nas regiões mais secas do Nordeste.

Nesse primeiro encontro com dona Ana, num evento da Emater em sua comunidade, ela nos falou, com simplicidade e sabedoria, que de pouco adiantavam as políticas públicas, os serviços e o apoio dos governos em comunidades onde não havia sequer água tratada para beber. Por mais de 70 anos, dona Ana aprendeu com a vida desafiadora que teve, buscando água em córregos e cacimbas para abastecer sua casa, o que é de fato desenvolvimento rural sustentável.

Nascia ali no Mocambo, para todos nós da extensão rural, e particularmente para mim, então nas funções de gestão pública e ainda hoje no trabalho parlamentar, o compromisso de lutar determinadamente para a universalização do abastecimento de água tratada em comunidades rurais.

E desde então, no período de presidente da Emater e depois com os recursos de Emenda parlamentar que anualmente destinamos para essa finalidade, foram feitos no semiárido mineiro mais de 900 sistemas comunitários de abastecimento de água, com investimentos em torno de R$ 13 milhões, levando água tratada para mais de 60 mil famílias do meio rural.

Dona Ana faleceu em 2010. Ela alcançou esse direito à água tratada dentro de casa já ao final de sua vida de mais de 80 anos. O sistema de abastecimento na comunidade do Mocambo foi o projeto-piloto da Emater-MG e, bem-sucedido, levou o governo estadual a incluí-lo no programa estruturador Minas Sem Fome. Com isso, o projeto se estendeu para todo o semiárido mineiro, do Norte de Minas ao Mucuri e Vale do Jequitinhonha.

Paisagens como a da comunidade do Mocambo estão diariamente em novelas de televisão, mostrando como ainda vivem milhões de brasileiros em comunidades castigadas por condições climáticas adversas. Mas nenhuma crise econômica justifica a falta de água tratada nas casas de famílias rurais, pois trata-se, afinal, de uma prioridade inquestionável: água é saúde, é vida, é um direito fundamental das pessoas.

Portanto, continuam atuais e cada vez mais urgentes os ensinamentos e alertas de dona Ana, quando nos mostrou as raízes dos desafios para o desenvolvimento rural sustentável: de que adiantam para o meio rural as tecnologias, os recursos, as políticas e o apoio de governos quando não existe sequer água tratada para as famílias rurais?