Cinquenta anos depois, continuamos em risco

Quero registrar a minha história de vida, tenho sequela de poliomielite nos membros inferiores, popularmente chamada de paralisia infantil, e me sinto no dever de alertar para a importância da vacina nestes tempos sombrios de negação da ciência. Nasci em fevereiro de 1970, naquela época a poliomielite aterrorizava a humanidade, era altamente contagiosa e o pólio-vírus era capaz de infectar 100% dos indivíduos suscetíveis. Reflexo de um tempo muito difícil dos anos 60 e 70 no Brasil, momento em que a ciência sofria também com o desgoverno da época de chumbo.

Embora 95% das infecções se apresentem de forma assintomática, os outros 5% restantes implicavam o comprometimento do sistema nervoso central e, em alguns casos, desencadeava a destruição dos neurônios motores, levando à paralisia. Essa paralisia variava de uma deficiência nos membros inferiores (meu caso) a uma insuficiência respiratória por meio da paralisia dos músculos respiratórios, que resultava em morte em muitos casos.

A melhor maneira de tratar a Poliomielite, além de investimento nos cuidados com a higiene pessoal e dos alimentos, a Organização Mundial de Saúde (OMS), recomenda que todas as crianças sejam imunizadas com a vacina contra a Pólio. As vacinas são medicamentos eficazes e seguros e têm sido uma importante ferramenta na luta pela diminuição do contágio e de mortes da covid-19 e sequelas de inúmeras doenças, inclusive da Pólio que atingiu 26 mil casos entre 1968 e 1989.

Mesmo com as marcas que carrego no corpo das sequelas de poliomielite, sempre acreditei em um mundo melhor, em ser feliz, sonhava que poderia ser um soldado, não ligava muito para a minha deficiência física. Estamos presenciando as mesmas dificuldades de 50 anos atrás, quando os programas de imunização eram confusos. O significado da erradicação da poliomielite foi, contudo, uma demonstração da capacidade de condições necessárias, principalmente de liderança e decisão política/científica adequadas para conter um vírus.

Ao estudarmos a história da poliomielite e de sua erradicação, percebemos a complexidade de aspectos envolvidos: políticos, sociais, culturais, científicos e econômicos. A estratégia para a vacinação em massa, não existiria sem uma validação política, sem a ativação de uma forma de pacto social.

Não podemos permitir que pessoas com deficiência fiquem sem a devida atenção, sem o direito e atenção integral à saúde, além de assistência a doenças e agravos comuns a qualquer cidadão, nesse momento da vacinação ninguém pode ficar para trás.

O Solidariedade criou a Secretaria da Pessoa com Deficiência para garantir o cumprimento dos direitos das pessoas com deficiência, por meio da participação ativa na sociedade, da transformação da realidade dessas pessoas, com iniciativas que possam envolver todos os agentes necessários à promoção de uma sociedade mais inclusiva, justa e solidária.  Estamos organizados no Brasil inteiro, através das secretarias estaduais e seus secretários(a), com atuação ativa nas discussões por igualdade de direitos, inclusão e acessibilidade.

Precisamos da ajuda da sociedade em geral, a situação é muito grave. Temos participado da conscientização e luta contra qualquer tipo de violência e segregação, não podemos permitir que crianças, adolescentes, mulheres e idosos estejam em constante risco, em locais que deveriam ter tranquilidade e segurança, ou seja, sua casa, na escola, no trabalho, os números mostram que pessoas com deficiência são mais propensas ao agravamento de doenças e contaminação desse terrível vírus, precisamos proteger e garantir os direitos humanos de todo cidadão.