Amor e tolerância

O Brasil das pessoas de bem assiste estarrecido a episódios de acirramento do extremismo religioso, cujos frutos venenosos pareciam longe de nossa realidade, mas, recentemente, aqui colhidos em variadas formas de violência, chegando a seu ápice – o assassinato.

A História mostra que a sociedade humana, ao longo de sua caminhada terrena, muitas vezes incorreu neste erro. Arrogando-se à qualidade de representantes do Deus no qual acreditavam, grupos perpetraram derramamento de sangue, perseguição e crueldade, sob a enviesada lógica de defender determinada fé como a única legítima e, portanto, os seguidores das demais deveriam ser combatidos, preferencialmente até o extermínio.

O espantoso é que tal entendimento obscurantista e inadmissível perdure até os dias de hoje. E pior, que alguns líderes religiosos o estimulem em meio a seus rebanhos, disseminando um discurso de ódio e condenação que em nada se coaduna com a grandeza espiritual que, por fim, deveria ser o objetivo da fé posta em prática.

Quem me conhece sabe de minhas convicções religiosas. Tê-las e professá-las – se assim o desejar – são direitos de cada cidadão, garantidos inclusive por lei nas sociedades democráticas, como felizmente é a nossa.

Sou evangélico e tenho a Cristo como meu Senhor absoluto. Justamente por seguir Seus ensinamentos, respeito todos os outros caminhos religiosos ou espirituais e tenho amigos adeptos das mais variadas esferas da fé. Para essa convivência harmônica e respeitosa, basta-me lembrar da mensagem Dele, quando, entre suas sábias orientações nos instruiu: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.

Basta colocar em prática outra de suas mensagens, de imenso poder por sua simplicidade: “Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, com o critério com que julgardes, séries julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também”.

Por que, então, algumas pessoas lançam mão de um suposto comprometimento com “as verdades” delas e, ao invés de viver conforme seus dogmas e parâmetros comportamentais e éticos,  se ocupam diuturnamente em observar e condenar as escolhas alheias?  Uma das possíveis explicações reside no fato de várias religiões, ao longo dos tempos, virem se tornando um instrumento de manipulação das massas e obtenção de vantagens financeiras ao invés de serem difusoras da graça e bondade reveladas por Deus. Não cito exemplos para evitar o risco das generalizações, por si só injustas.

Outra possível explicação estaria na dificuldade que algumas pessoas têm de aceitarem a si mesmas e, portanto, preferem projetar e reprimir  no outro suas frustrações, incômodos, indignações e deficiências. E, sim, todos as temos, em maior ou menor grau, razão pela qual viceja ainda a intolerância religiosa, como já dito, eventualmente nutrida por “líderes” mal preparados e/ou mal intencionados.

Lamentavelmente, somos falhos em nosso dever de amar a Deus, somos falhos no nosso dever de amar ao próximo. O que aprendemos de Cristo é que devemos amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, e, ainda mais, devemos demonstrar amor para com aqueles que nos perseguem. Esses foram os contundentes exemplos  deixados por Aquele a quem somos exortados a imitar enquanto seguimos.

Trilhar o caminho da fé – ou escolher não fazê-lo – pressupõe uma descoberta íntima, uma movimentação interior condicionada às vivências múltiplas. Impor uma determinada fé em detrimento de outras é romper com a liberdade de escolha – uma ilegalidade constitucional, repito. E, na compreensão da bondade divina, essa intolerância execra e afronta à liberdade e responsabilidade com  que o Deus em quem acredito nos brindou, em sua sabedoria.

Violência, crueldade, exclusão e desamor jamais podem ser praticados “em nome de Deus”; essa é a perversão que o mundo imprimiu ao exercício da fé e contra a qual todas as pessoas de bem, religiosas ou não, devem se opor. Divergir faz parte das possibilidades de seres racionais e livres, porém, divergir quanto aos  pressupostos da fé ou mesmo em relação ao objeto da fé jamais deve ser entendido como motivo que legitima agredir, indispor ou violentar ao outro. A genuína vivência cristã propõe amor, paciência e moderação.

O próprio Cristo, quando entre os homens, não lutou ou mesmo viveu contra homens. Recusou-se a agredir, “guarda a espada”, disse a Pedro no momento de sua captura. O Cristo que nos propõe e incita a vida nos deu exemplo servindo Ele mesmo com amor.

Na vida e aqui, publicamente, faço minha parte.