A POLÍTICA NAS ELEIÇÕES 2020

“Jave, como são numerosos os meus opressores, numerosos os que se levantam contra mim”… (Davi, Salmo 03)

Apoderada pelas palavras de Davi, inicio essa escrita para alertar que nem mesmo os ensinamentos da Bíblia Sagrada conseguiram combater as práticas de xenofobia, misoginia e racismo, características dominantes nesse país de população expressivamente dominante preta nas eleições de 2020.

Os fatores relevantes que capitanearam o processo eletivo têm diversas características evidentes que se destacaram vergonhosamente no momento mais importante para os habitantes brasileiros e não nacionalistas.

A pandemia causada pelo Covid-19 provocou o isolamento social e, com ele, as práticas de captação de votos desceram rio abaixo: o velho samba tocado em pagodes; silenciou a voz dos negros e a sua alegria em aglomerar pessoas; o recesso obrigatório em territórios de candomblé e Umbanda, abafaram o toque dos atabaques e distanciaram os sacerdotes e sacerdotisas de seu hábito cotidiano. Até mesmo os templos evangélicos calaram as vozes eloquentes dos pentecostais, os verdadeiros donos da verdade e das profecias.

As redes sociais, fora do alcance nos aglomerados e comunidades periféricas, deram o tom na nota final: se você conseguiu burlar o sistema econômico, sua campanha estava salva.

A polarização ideológica, o coronelismo atuante nas capitais e abuso nos municípios tiveram concorrência acirrada entre o tráfico de drogas, de influências e poderio de hierarquias familiares.

A violência política praticada tanto nas tentativas de “lavagem cerebral” ou, propriamente, corpo sem vida no chão, são práticas que aqueles que não podem alcançar as assembleias legislativas.

De todos esses fatores que impediram que as eleições no primeiro turno, o mais utilizado, praticado e escancarado foi o racismo e as diversas práticas de discriminação. Veiculadas tanto na comunicação visual quanto na oral, os candidatos(as) que tinham a pigmentação da pele mais avançada, ou o nariz achatado, ou cachos na cabeleira foram os mais ignorados.

A imagem de negras e negros, salvo raríssimas exceções, foram usados para evidenciar os Vices, não pela importância do cargo e sim, para cumprir uma fidelidade a seu partido que apresenta o segmento NEGRO em sua bandeira. Tais atitudes não representam nenhuma preocupação em definir ações efetivas que visem banir as estatísticas de racismo no país e nem modificar a forma de viver nos locais periféricos populacionais.

O racismo estrutural reina e, infelizmente, sem perspectivas de extinção; o racismo institucional foi a escada de degrau mais alto para tentar despencar candidatos negros e negras a sequer tentar uma cadeira nas câmaras municipais quanto os cargos de direção de cidades. Aliás, compor chapa com elemento foi apenas para cumprir composição partidária.

Ter um negro como estampa de material gráfico nunca significou empoderamento, nem tão pouco, garantia de ocupação de espaço de poder. No andar reverso da caminhada eleitoral, barganhas oferecidas a suas candidaturas não condiziam com a moeda de troca na proposição inicial.

Até as leis foram burladas: usaram a mulher para cumprir cotas eleitorais, mas, a mulher negra teve que se esforçar para ser eleita.

Ultrapassar conceitos religiosos, rei antes a séculos, onde, mostrar que o Deus Supremo é um só sob as diferentes formas de chama- ló; ultrapassar violência política, vencer a ignorância através do conhecimento de tradições, de direitos, de leis e principalmente, da oralidade: calar é voltar ao passado, é aceitar a escravidão imposta a séculos.

Aos homens negros, peço que realmente desnudem de sua pele o machismo característico do suor másculo, a vontade de banir o racismo e alcançar os espaços de poderes. As eleições não param e temos que vencer em 2022: cotas para negros em geral e fundo especial para as mulheres, os famosos 30% que não concretizaram.

Às mulheres negras, fortes, guerreiras e que carregam a marca forte do Solidariedade, que se transformem em fadas, e levem às outras soltas nesse país de meu Deus, a bandeira de que ser negra é ser transformadora, inteligente e multiplicadoras de liberdade: “Só voa alto quem tem asas fortes”.

Saliento que o nosso partido é de oportunidade e nossa Secretaria da Igualdade do Solidariedade batalha diariamente para mudar essa realidade. Temos que encarar esse triste e revoltante problema de frente e fazer a diferença não somente dentro do nosso partido. Vamos mostrar para a sociedade o nosso trabalho e movimentar a todos.

Enfim, o espetáculo continua. Cabe às atrizes e atores lerem corretamente o texto, incorporarem a personagem e tornar real o principal papel nessa arena política e cheia de atropelos e falsa ideia de igualitária divisão de poderes, chamada, BRASIL.

20 de Novembro de 2020, dia em que se comemora o Dia da Consciência Negra, mas ainda nos cabe essa reflexão sobre preconceito e racismo no Brasil.

Neli Martins
Professora, jornalista e representante de Guarda de Congado