Pessoas com deficiência existem

Estamos nos aproximando das eleições municipais de 2020, já com as datas definidas de primeiro e segundo turno, nos municípios que assim for necessário. Fico imaginando onde estarão os eleitores nesse importante dia, pois será a consolidação da democracia, e também a escolha dos seus representantes municipais para os próximos quatro anos. Em tempo de pandemia e risco de morte eminente, será que os eleitores irão as urnas? Pois é, enquanto esse dia não chega, tenho percebido pré-candidatos utilizando as redes sociais para atrair eleitores, por meio de seus projetos e propostas.

Mas, tem sido preocupante como as pessoas com deficiência estão sendo cortejadas ou tratadas. Tenho percebido a distância com essa realidade de milhões de brasileiros, no entanto quando chega o ano eleitoral, tentam criar uma aproximação de puro interesse pessoal, tentam conquistar sem mesmo saber a nossa realidade e dificuldades, não sabem como conversar, ou seja, se dirigem de diversas formas, ei Sr. com deficiência, ou portador de necessidades especiais, ou amigo com deficiência,  enfim, não sabem lidar com essa realidade e muito menos criam uma comunicação adequada.

Importante ressaltar que para a construção de uma sociedade inclusiva e acessível, além da solidariedade, é necessário o diálogo, é fundamental o trato com as palavras para com o próximo, mesmo que esse próximo sempre esteve distante de seu radar político. Nos últimos anos, a terminologia destinada ao tratamento de pessoas com algum tipo de deficiência (física, intelectual, visual, auditiva ou múltipla) esteve em contínuo processo de análise e reformulação, tendo em vista a evolução de nosso entendimento e sensibilidade sobre o tema. No passado não muito distante, por exemplo, ouvíamos afirmações lamentáveis a respeito da pessoa com deficiência, mas de certa forma eram aceitáveis os adjetivos como “inválidos”, “excepcionais” e até “defeituosos”.

Nos dias de hoje, recomenda-se o uso da expressão “pessoa com deficiência”. Ela é adotada pela Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (ONU, 2006), principal referência internacional sobre esse assunto. Essa Convenção diz que a deficiência é resultante da combinação entre dois fatores: os impedimentos clínicos que estão nas pessoas (que podem ser físicos, intelectuais, sensoriais etc) e as barreiras que estão ao seu redor (na arquitetura, nos meios de transporte, na comunicação e, acima de tudo, na nossa atitude). Resumindo, entende-se que a deficiência é uma condição social que pode ser minimizada conforme formos capazes de criar ambientes de inclusão e acessibilidade, mas principalmente mudando nosso entendimento e a atitude sobre a diferença.

Resumindo a nossa reflexão de hoje, por que foram abandonadas as expressões “portador de deficiência” e “pessoa com necessidades especiais”, vistas como tentativas de amenizar o estigma e o olhar negativo gerado pelas palavras? Ou seja, por que se optou por “pessoa com deficiência” ou “aluno com deficiência” ou “profissional com deficiência” e etc? Em síntese, por dois fatores: esta expressão não disfarça a existência de uma diferença e evita a armadilha de partirmos para argumentos simplistas, como “no fundo, todo mundo é imperfeito”. Por outro lado, favorece a consciência de que, em alguns casos, é necessário um tratamento desigual para que a gente promova equidade.

Lembrando que em tempos de isolamento social e confinamento, os discursos tendem a aumentar, cada vez mais, nas redes sociais, sendo assim, qualquer deslize ficará registrado em escrita, áudio ou vídeo. É fundamental que as boas maneiras e regras da internet sejam respeitadas, pessoas com deficiência tem o direito de escolher o seu legítimo representante, chega de permitir voz aos que não nos representam.

Por fim, precisamos eleger pessoas com interesses coletivos, que saibam criar modelos de convivência entre todos os cidadãos, respeitando sua cultura, característica e forma de expressão, a pessoa com deficiência não pode ficar à mercê das escolhas de outras pessoas. Precisamos construir pontes, precisamos diminuir as distâncias e acabar com as desigualdades. Isso só será possível quando de fato, todos os eleitores escolherem com convicção de causa o seu representante e participarem das discussões e decisões políticas.