Mulheres águias: artigo de Elisa Araújo, prefeita de Uberaba

Aos 19 anos, iniciei a minha jornada profissional na empresa da minha família. No chão de fábrica aprendi o valor e a força do trabalho. Compreendi atuando em diversos setores que nós, mulheres, somos capazes de somar ainda mais para o sucesso de qualquer empreendimento, seja ele grande ou pequeno.

Durante minha caminhada, vi o cenário profissional se abrir e mais mulheres assumirem cargos de gestão, mas percebi que a presença feminina no ambiente de trabalho diminui conforme o nível hierárquico aumenta.

Segundo dados apresentados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a participação feminina no mercado de trabalho é de 49,9%. Ao todo, são 21,4 milhões de mulheres trabalhadoras. Isso representa um grande avanço, já que na década de 50 mulheres ocupavam apenas 14% dos postos de trabalho.

Trabalhei na indústria de calçados, em transportadora e também em hotel, onde atuei como recepcionista, garçonete, área financeira e, enfim, cheguei ao cargo de diretora. Mesmo trabalhando em empresa familiar, busquei me profissionalizar para oferecer o melhor. Passei por todas as áreas e entendi como é estar nesse cenário que, em muitas situações, a mulher é coadjuvante.

Como líder, busco sempre motivar e abrir o caminho para ofertar oportunidades para que mais mulheres ocupem seus espaços em cenários profissionais. Observo ainda a entrega, responsabilidade e disponibilidade em executar as atividades com excelência. Entendi nessa minha caminhada profissional como é importante buscar a profissionalização para que, além de desenvolver nossas habilidades, haja oportunidade de crescimento dentro e fora do ambiente de trabalho.

Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), no Brasil, menos de 5% dos cargos de chefia são ocupados por mulheres e apenas 24% das profissionais estão em posição de liderança nas empresas brasileiras. Este recorte mostra ainda que mulheres são mais escolarizadas e se preparam para o mercado, uma vez que 30% possuem nível superior e graduação.

A mulher no século XXI precisa aprender a lidar com a gestão do tempo para desempenhar os papéis sociais de mulher, mãe, esposa, filha, amiga e ainda, profissional no mercado de trabalho. Ela precisa conciliar o trabalho remunerado com os afazeres e cuidados domésticos, por isso, o estímulo profissional é ainda mais desafiador. Ainda de acordo com a OIT, 64% das brasileiras trabalham fora. Não podemos esquecer que, além dos diversos afazeres, as mulheres também necessitam ser cuidadas em seu intelecto e espírito.

Neste caminho, trabalhei com dedicação e atuei no associativismo, sendo presidente do Sindicato das Indústrias de Calçados de Uberaba (Sindcau). Fui também diretora do Centro das Indústrias do Vale do Rio Grande. Cheguei à presidência da Federação das Indústrias de Minas Gerais – Regional Vale do Rio Grande. Neste cargo, é importante ressaltar que fui a primeira mulher a assumir em 80 anos em votação realizada em sua maioria por homens.

Precisamos ocupar nossos espaços. Nós, mulheres, temos nos colocado em lugares que antes eram ocupados apenas por homens em cargos de gestão, liderança e direção, mesmo assim, ainda temos pouca representatividade.

Pesquisa realizada pela Triwi, agência de marketing digital, mostra que 27,4% das empresas dos setores de serviço, indústria e comércio ainda não possuem mulheres exercendo qualquer cargo de liderança. Nas outras 32,3% das empresas pesquisadas nos mesmos setores, não passa de 10% do total das posições de liderança ocupadas por mulheres.

Com empatia, temos a capacidade de valorizar o outro. A minha certeza é que vamos além. Michelle Obama tem uma frase que diz que “O sucesso não tem a ver com quanto dinheiro você ganha, mas com a diferença que você faz na vida de outras pessoas. ”

Em 2020, decidi encarar um novo desafio pessoal e profissional. Me candidatei ao cargo de prefeita de Uberaba. Em um cenário que antes era ocupado apenas por homens, disputei a corrida eleitoral ao lado de dez concorrentes, sendo três mulheres.

Durante seis meses, percorri bairros de norte a sul de Uberaba. Ouvi mulheres que precisavam de representatividade política e essa vontade chegou às urnas. Fui eleita a primeira mulher a assumir o cargo do Executivo em 200 anos, um marco na história de Uberaba. No primeiro turno recebi 54.581 mil votos, 36,25% dos votos totais. No segundo turno fui eleita com 85.990 votos, representando 57,36% dos votos.

Percebo que esse papel na política traz a essência do meu posicionamento profissional e da minha sensibilidade como mulher. A soma de vontades em promover uma cidade que ofereça condições melhores para todos, inclusive amplie a inserção da mulher no mercado de trabalho.

Diariamente, reafirmo a minha vontade de ver mulheres águias, alçando voos cada vez mais altos, com vocação para estar sempre no topo, ocupando espaços de liderança. É preciso entender que o melhor das pessoas vem quando estão felizes.

Elisa Araújo – Prefeita de Uberaba (MG)