Consultorias veem queda do PIB industrial em 2020 mesmo com socorro do governo – G1

As medidas econômicas anunciadas pelo governo federal não vão impedir com que o Produto Interno Bruto (PIB) industrial tenha queda este ano – ainda assim, essas ações precisam chegar com mais agilidade até às empresas e às famílias para evitar uma quebra generalizada dos negócios, afirmam analistas ouvidos pelo G1.

Antes da pandemia, eles esperavam, em média, um crescimento de 2% no PIB industrial este ano. Com a crise paralisando as atividades do país, as projeções foram revisadas para números negativos: as expectativas variam de -1,7% a -4%.

Alessandra Ribeiro, economista da Tendências Consultoria, espera uma retração de 2,4% para o PIB industrial neste ano, puxada pela indústria de transformação (-3,3%) e construção civil (-3,9%). “O que salva dentro do PIB industrial é a extrativa (+0,6%) e as atividades industriais de eletricidade, água e esgoto (+0,1%)”, diz.

Já o economista da 4E Consultoria, Juan Jensen, prevê queda de 1,7% para o setor e reforça que a indústria de transformação foi a primeira a suspender as atividades durante os dias iniciais da quarentena pelo país. A indústria automotiva, por exemplo, tem 64 das suas 65 fábricas paralisadas.

Para Fábio Silveira, sócio-diretor da MacroSetor, o desempenho das indústrias ligadas à cadeia da agricultura é o que vai impedir uma queda maior do setor. “Os preços do milho e da soja não caíram. E o dólar alto beneficia a receita que virá da exportação”, afirma.

Medidas precisam chegar logo às industrias

Muitas medidas econômicas do governo federal para socorrer as empresas já foram anunciadas e algumas já estão vigor. Esse pacote vai desde prorrogação de pagamento de tributos e redução de contribuição, até flexibilização das leis trabalhistas e linha de crédito para pequenas e médias empresas financiarem a folha de pagamentos.

Mas, para o economista-chefe do Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), Rafael Cagnin, elas precisam chegar logo ao setor privado e sem muitas dificuldades, principalmente as linhas de financiamento – que devem dar um “sobrefôlego” de caixa para as indústrias conseguirem sobreviver durante os meses de quarentena. “Do contrário, as medidas vão perder o efeito rapidamente”, diz.

O economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, ressalta que o reforço de caixa para as indústrias neste momento tem o intuito de evitar uma “quebradeira generalizada” e, assim, facilitar o processo de recuperação da economia após a crise do coronavírus.

“As medidas servem para impedir com que os impactos da pandemia sejam duradouros na economia. Pois, se a gente tem falência e desemprego em uma proporção muito elevada, isso gera um problema na etapa de retomada”, diz Cagnin.

Os empréstimos para as pequenas e médias empresas pagarem folha de salário serão feitos pelos bancos públicos e privados. Porém, nos bancos privados, as empresas serão submetida à análise de crédito, o que, para Agostini, deve dificultar o caminho dos recursos até os pequenos negócios.

“A pequena empresa não tem um bom nível de governança. Não tem um balanço auditado. Vai ser mais difícil para ela conseguir essas linhas. A dinâmica para esse dinheiro chegar nas pequenas vai ser complicada”, diz Agostini.

Renata, do Ibre, diz que a pequena e média indústria representa “um pouco mais de 40%” das empresas das empresas do setor e que se o financiamento conseguir chegar este grupo já será meio caminho andado.

“Essas empresas, geralmente, não têm capital de giro para se manterem durante 3 meses. Se a gente não tivesse nenhum auxílio, poderíamos ver muita empresas fechada”, diz a economista.

Já para Cagnin, o Banco Central “saiu na frente” ao anunciar, logo no início da quarentena, a injeção de R$ 1,2 trilhão no sistema financeiro, mas tem dúvidas se os bancos vão repassar esses recursos às empresas.

“O quadro é tão incerto que há o risco de os bancos segurarem o dinheiro e não repassar ao tomador final. Foi o que aconteceu na crise de 2008. Parte do dinheiro ficou empoçado nas instituições financeiras”, diz.

Demanda interna

A queda da demanda interna provocada pela pandemia tem um efeito indireto sobre as indústrias. Com as famílias reduzindo as compras, o faturamento do comércio e dos serviços caem, diminuindo, assim, os pedidos para o setor industrial.

Por isso, as medidas de socorro aos mais vulneráveis, como o auxílio de R$ 600 a informais, são vistas pelos especialistas como necessárias para a sobrevivência da indústria e retomada do setor após à crise da pandemia.

“A propensão da baixa renda em consumir é alta. A baixa renda gasta tudo o que ganha. Quando você interrompe o fluxo de renda dela, tem um impacto forte sobre a demanda”, reforça Cagnin.

“A demanda interna é o que tem garantido o crescimento do PIB. As medidas não vão evitar que a demanda seja ruim este ano. Mas segura um pouco e ajuda na recuperação da economia lá na frente”, diz ela. “Se as empresas, ao final desta crise, verem que não tem demanda, elas não vão ter confiança pra investir.

Indústria já estava em alerta

Segundo a economista do Ibre, a indústria já estava com o sinal de alerta ligado antes de março. “Os índices de expectativas da indústria já tinham caído em fevereiro. Os empresários já estavam com o sinal de alerta ligado e já previam uma queda no nível de produção e da demanda, mas, no mês de março, essa queda se aprofundou. O sinal de alerta virou um sinal de pessimismo”, diz Renata.

O Índice de Confiança da Indústria (ICI) da Fundação Getulio Vargas (FGV) chegou a cair 3,9 pontos em março, para 97,5 pontos, recuando em 14 dos 19 segmentos pesquisados. Foi a maior queda mensal desde março de 2015, quando começou as primeiras manifestações contra a ex-presidente, Dilma Rousseff.

As expectativas do setor recuaram para os próximos três e seis meses. “A indústria está se desfazendo de parte do seu estoque, sem aumentar a produção em face da retração da demanda”, acrescenta.

Com a pandemia do coronavírus paralisando boa parte dos serviços e do comércio pelo país, a demanda por produtos e serviços industriais já recuou para 79% das empresas, segundo um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Para 57% dessas empresas, a queda foi intensa.

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