Queijo Minas artesanal: uma luta contra a legislação excludente

O queijo minas artesanal é um produto de excelente qualidade, produzido com leite cru, com 100% de segurança alimentar. E tem muito mais que leite, coalho e sal: tem a história de gerações de produtores e de famílias rurais de diversas regiões de Minas, como Serro, Araxá, Canastra, Campo das Vertentes, Cerrado e Triângulo Mineiro, entre outras. Trata-se de um dos produtos de maior agregação cultural agrícola mineira. Sua produção remonta aos tempos da colonização. Minas Gerais, cheia de montanhas e topografias características, foi o berço do queijo artesanal, cada vez mais apreciado na culinária das famílias.

Mas não foi fácil, nem foi da noite para o dia, a luta para a sua “libertação”. O queijo minas artesanal pode hoje ser comercializado livremente em todo o País, mas não é o que ocorre ainda com a imensa maioria dos produtos artesanais da agricultura familiar. Produtos que podem até vir a desaparecer se não formos capazes de dar racionalidade às exigências sanitárias que, muitas vezes, são de burocratas que não conhecem em profundidade “o jeito” de produção artesanal.

Na realidade, essas exigências, muitas vezes descabidas, são mero instrumento para reserva de mercado dos grandes conglomerados agroindustriais. É muito claro que os produtos artesanais não podem ter as mesmas exigências feitas à produção em larga escala. Entretanto, impõe-se ao produtor de 10 queijos por dia os mesmos padrões de instalações que uma agroindústria que produz em série milhares de toneladas por dia.

Esta imposição vem desde 1952, no período pós-guerra, quando foi determinado um período de 60 dias de maturação aos queijos artesanais, para a garantia da sanidade e venda para fora de nossas fronteiras. Exigências que fizeram do nosso queijo, produzido com o capricho, o cuidado e a qualidade característicos da tradição de Minas, um produto “clandestino”.

Para mudar essa situação foi preciso muita organização dos produtores, estudos e pesquisas. Realizamos uma audiência pública histórica na cidade de Medeiros, na Serra da Canastra, evento que iniciou uma nova dinâmica nos processo de luta e mobilização. Ouvimos agricultores, extensionistas, pesquisadores, e tudo isso desaguou em reuniões, audiências e demandas organizadas no Ministério de Agricultura. E assim, foi finalmente decretada a liberdade do queijo minas artesanal.

Cumpre destacar a implementação de maneira pioneira de uma rede de assistência técnica. Extensionistas orientam os produtores no manejo, alimentação e cuidados com o rebanho, e a produção dentro de padrões de higiene e segurança alimentar. O produtor, ao atender ao caderno de normas, recebe seu cadastro junto ao instituto de defesa animal e vegetal, que atesta sua produção dentro dos padrões de excelência.

Buscamos em missões técnicas na França a inspiração para construir dois Centros de Qualidade do Queijo, os primeiros do país. Um em Medeiros e outro em Rio Paranaíba, na região do Cerrado. Esses centros permitem que os produtores façam a maturação do queijo minas em condições ideais de temperatura, luminosidade e higiene. Tudo isso significa padrão de qualidade, valor agregado e um produto com plenas condições de levar a cultura e a tradição da agroindústria familiar para todo o Brasil.

Fonte: Jornal Hoje em Dia