O grito

Um forte estampido e uma enorme pressão. Foi assim que começou aquele dia 29 de maio de 1983 para Maria da Penha Maia Fernandes. Logo ela percebeu que havia sido atingida, mas sem conseguir se mexer, tampouco gritar, sua única companhia até ser socorrida eram seus pensamentos: “Meu marido me matou”?

Com um histórico longo de agressões, o colombiano Marco Antonio Heredia Viveros tentou pela segunda vez o assassinato, desta vez por afogamento e eletrocussão. Maria da Penha tomou coragem de denunciar o então marido, que só foi condenado após 19 anos de julgamento e ficou apenas dois anos em regime fechado.

O que ela passou não foi em vão. A partir de sua atitude, o Centro pela Justiça pelo Direito Internacional e o Comitê Latino-Americano de Defesa dos Direitos da Mulher intervieram e condenaram o Brasil por não ter leis de proteção à mulher.

Nesta semana, a Lei Maria da Penha – de proteção aos direitos da mulher – completa 10 anos. Há uma década, as mulheres começaram a soltar a voz. Talvez um balbucio tímido ainda, mas não podemos descartar a importância de o país começar a olhar também para elas.

Fatos como o caso da atriz Luiza Brunet, que denunciou a agressão do então marido Lirio Parisotto, vão tomando forma e a voz trêmula começa a ser ouvida. É claro que fatos com famosos têm muito mais impacto na população. Quantas Marias, Joanas e até mesmo Luizas não existem por aí, que ainda não conseguiram gritar por socorro.

Até porque a lei existe, mas as falhas à proteção feminina ainda são inúmeras. Delegacias de Proteção à Mulher chefiadas por homens, que em sua maioria não compreendem a brutalidade do assédio moral, psicológico e físico a que uma mulher se submete, muitas vezes para proteger os filhos, a casa, para conseguir o seu sustento.

A vergonha e a culpa que sentem por ter escolhido aquele companheiro, por não ter conseguido perceber os sinais ou simplesmente pela indignação de que atos tão abusivos possam vir de quem deveria ser um parceiro.Mas nada é maior que o medo, motivado por ameaças à família, à vida e à voz delas. Elas se calam porque as leis de medidas protetivas demoram a sair, quando saem. Se saem, nem sempre são cumpridas e os agressores quase nunca são punidos. Muitas vezes, a punição só ocorre após o golpe fatal. E aí é tarde, as vozes são caladas mais uma vez.

As mulheres querem ser representadas por outras mulheres. As mulheres querem que os primeiros sinais e as primeiras balbucias sejam levadas em consideração. As mulheres querem ser independentes. E acima de tudo, querem ser ouvidas. Soltar a voz. Ao invés do barulho alto do estampido, acordar com o grito de liberdade!