Agricultura: A Pagadora de Contas

Tenho dito que o Brasil, infelizmente, optou por um tipo de desenvolvimento econômico e social que privilegia as cidades, as metrópoles. E com isso deixa ao abandono as populações das pequenas cidades, dos distritos e vilarejos, sem investimentos e políticas públicas que lhes garantam a oportunidade de ali viver e trabalhar.

Há cerca de 60 anos, o Brasil tinha 85% de sua população no meio rural. Hoje, essa relação se inverteu: 85% da população estão nos meios urbanos. O resultado desse modelo é amplamente conhecido: desigualdades sociais, insegurança, criminalidade, esgarçamento cultural, demandas crescentes e não atendidas nas áreas de saneamento básico, moradia, serviços de saúde, mobilidade e qualidade de vida.

Essa configuração social do país, com a concentração das populações em cidades imensas e caóticas, tem um alto custo para a administração pública. São cada vez maiores os investimentos em saúde e educação, em saneamento, segurança pública, habitação e mobilidade (para não dizer das nossas péssimas estradas vicinais).

E para a manutenção desse modelo, a população rural, por meio de sua atividade econômica, a agricultura, é chamada sempre a pagar a conta, com impostos, com os altos preços dos insumos e represamento de preços de seus produtos, por exemplo.

E paga essa fatura mesmo sem um adequado planejamento, sem investimentos em infraestruturas e condições de comercialização, sem que o Estado invista em políticas sociais. Agora, com o acirramento da crise econômica, a economia rural é o único setor que não teve desemprego. Ao contrário, aumentaram as oportunidades de trabalho.

Para se ter ideia de como a agricultura é chamada a pagar a conta, temos alguns números. Um comparativo de indicadores no início do Plano Real, em 1994, até 2015: em 94, uma colheitadeira custava R$ 61 mil; em 2015, seu preço é de R$ 330mil, com variação de 439,42%, com 83,57% a diferença inflação.

Já o preço da saca do milho era de R$ 6,32 em 94; em junho de 2015, o preço é de R$ 17,67, uma variação de 179,59%, com 343,41% a diferença inflação, e teria um preço corrigido pelo IGPD-I de R$ 39,37. Ainda nesses comparativos, elaborados pela Fecoagro/RS, FGV, Banco Central, Emater/RS, Dieese, Mapa e Conab, o trigo teve as seguintes variações: R$ 8,67 por saca em 1994; R$ 34,98 em junho/15; variação no período de 303,46%, diferença inflação de 219,54%, e preço corrigido IGPD-I de R$ 54,01.

Enquanto isso, para citarmos apenas alguns insumos, o adubo era de R$ 210,00 a tonelada em 94, e agora é de R$ 1.250,00, com variação de 495,24% no período. A ureia, preço por tonelada, era de R$ 320,00 em 94, e em junho de 2015, de R$ 1.255,00, variação de 230,81% no período. E o óleo diesel, que custava R$ 0,38 o litro em 94, custa em 2015 R$ 2,48, variação de 552% no período.

Bastam esses poucos números para ver o tamanho do desafio colocado às famílias rurais e aos empreendedores da agricultura brasileira, onde as máquinas e insumos têm preços corrigidos em patamares que chegam a ser o dobro dos preços dos produtos agrícolas. E, assim, pagam a conta de um modelo equivocado de desenvolvimento, sem receber a contrapartida do Estado brasileiro.