“Nós temos que incomodar, sim!”, diz a secretária nacional do Solidariedade Mulher

Eunice Cabral, Secretária Nacional do Solidariedade Mulher

Desde outubro de 2015, a Secretaria Nacional da Mulher do partido Solidariedade promove o chamado “Encontro da Mulher Solidária”, angariando centenas de mulheres para o universo político. “Esses encontros, que acontece apenas entre mulheres, são extremamente importantes para que elas se sintam à vontade e encontrem ressonância. Vi mulher que mal sabia pegar em um microfone virar pré-candidata a vereadora”, comemora Eunice Cabral, também vereadora e secretária nacional do Solidariedade Mulher.

Lançando mão do tema “Mais Mulheres na Política”, a iniciativa tomou corpo e voz Brasil afora, mas Eunice explica que os desafios ainda são enormes. Com representação de apenas 9% na Câmara Federal e 10% no Senado, o espaço público ocupado por mulheres atualmente é irrisório. “Se nós somos mais da metade do eleitorado, onde estamos representadas? Então temos que incomodar, sim, para sermos ouvidas”. 

Solidariedade: Você diz ter um projeto para as mulheres. Que projeto é este?

Eunice: Olha, meu projeto é que as mulheres sejam realmente (enfatizando) respeitadas. Que elas não sejam apenas número, cota. Que sejam ouvidas e não tolhidas no seu crescimento. Só assim podem conquistar espaço porque competência não falta.

Solidariedade: Quais são as dificuldades que as mulheres enfrentam no processo político?

Eunice: Olha, primeiro, é o seguinte: como, sem patrocínio e apoio inclusive familiar, você briga com o poder econômico? Vamos falar das Eleições Municipais de 2016: dentro do número de candidatos e pré-candidatos a vereadores, se um partido não cumpre os 30% de mulheres, ele precisa tirar o homem… mas na hora do investimento não é igual. E agora – que não pode mais haver financiamento empresarial, apenas de pessoa física – a coisa piorou porque não seremos priorizadas nessa realidade. Se antes já não éramos, imagina… Então eu sou da opinião que, com essa nova lei, será muito mais difícil as mulheres se elegerem. E as dificuldades não acabam durante as eleições, apenas começam (risos). Porque a mulher terá sempre que convencer a maioria de homens dentro da casa para aprovar qualquer projeto. E como você convence alguém que não conhece ou não empatiza com todas as dificuldades de gênero, como a maternidade ou a vulnerabilidade social, por exemplo? Pois é, bem difícil. Mesmo dentro de seus próprios cargos, que são bem altos, elas também não têm autonomia, não têm autorização pra nada, essa é outra dificuldade. No meio sindical, pode pesquisar, poucas são as mulheres presidentes. Conta nos dedos de uma mão só. São secretárias nacionais, mas nunca presidentes e não é porque não querem.

Confira abaixo trecho da entrevista em vídeo:

Solidariedade: Como um partido político pode mudar isso?

Eunice: Qualquer partido pode ser uma grande ferramenta de mudança se dispor de um olhar diferenciado sobre essa questão. O partido precisa saber que uma vez dentro do processo político, a mulher vai enfrentar dificuldades. A luta é muito desigual porque o poder financeiro é desigual. A começar pela jornada de trabalho que, no caso das mulheres, é uma jornada dupla. Ela trabalha em casa e fora, mas o trabalho de casa não é contabilizado, o trabalho do lar não aparece. Mas, bem, como se fazem as leis? No Município, na Câmara dos Vereadores. No Estado, na Assembleia Legislativa. No país, na Câmara Federal. Mas como fazer políticas voltadas para mulheres, se nós somos minoria? Só dá pra fazer se estivermos lá dentro, na discussão, nos debates. Então nós só vamos mudar isso se as mulheres forem incluídas de verdade no contexto. E a melhor maneira de incluí-las é dando-lhes oportunidades para disputar um pleito de igual para igual, de vereadora a presidente da República.

Solidariedade: Como têm sido as ações da Secretaria pelo Brasil?

Eunice: Olha, são muitas. A começar pelos encontros, onde a gente faz palestras e tenta trazer essas mulheres para o meio, onde os temas são peculiares a elas, como violência doméstica e ocupação de espaço na sociedade. Aí tem os cursos de iniciação política, de preparação. É uma alegria tudo, mas é um trabalho de formiguinha. E eu não vendo facilidades, eu digo o que elas terão que enfrentar, senão elas não se fortalecem. Se eu vender facilidades e na prática elas se deparam com todas essas barreiras, corro o risco de essas mulheres se traumatizarem e nunca mais quererem disputar um pleito. Por isso vendo realidade. Outra coisa: os cursos são específicos para mulheres, não há homens. Por quê? Porque são linguagens diferentes. Mesmo num ambiente misto, a mulher fica constrangida de falar sobre suas particularidades. Então essas são as portas de entrada para trabalhar questões como violência, empoderamento, lugar de fala, são ações importantíssimas para compartilhar conhecimento. E enquanto instrumento partidário, nós preparamos e qualificamos muitas mulheres, o Solidariedade terá muitas delas candidatas.

Solidariedade: Como o Estado deve tratar a vulnerabilidade social da mulher, do tipo violência psicológica, física e sexual?

Eunice: Quando a mulher dependente sofre violência, vai enfrentar entraves como não ter para onde ir ou como se sustentar, já que muitas vezes não trabalha. Já a mulher independente, que não aceita essa violência e denuncia, toma atitudes para sair deste círculo, morre. Não é um caso isolado, as mulheres estão morrendo mais porque quanto mais voz, mais ódio.  Então o homem defende “sua honra” e segue a vida depois que mata uma mulher. Ou o crime é tido como passional, é romantizado e, sendo assim, pouco punido. De maneira que os agressores continuam em sociedade. Alguns usam os próprios filhos como arma, inclusive.

Então o Estado pode começar aplicando as leis que já existem, fazendo-as funcionar. Na minha opinião, nós temos a melhor Constituição do mundo, mas nada é levado a cabo. A gestão pública pode oferecer também mais abrigos para mulheres nessa situação, casas onde elas possam ficar por um tempo com seus filhos e onde o agressor não chegue. E não para por aí. Já que são mulheres em vulnerabilidade, enquanto provedor do Bem-Estar Social, o Estado também deve oferecer formas dela refazer a vida com cursos gratuitos, ajuda psicológica, enfim, prepará-la para o mercado de trabalho. E o partido, enquanto organização do Estado, pode trabalhar tudo isso.

Por Isadora Monteiro