Em entrevista à Folha, Paulinho explica papel do Solidariedade no cenário político

Em entrevista à Folha, Paulinho explica papel do Solidariedade no cenário político

O deputado federal Paulo Pereira da Silva, eleito por São Paulo, deixou ontem o PDT para se filiar ao novo partido que acaba de criar, o Solidariedade, e do qual será o presidente nacional. Seu objetivo é fazer oposição ao governo de Dilma Rousseff, a quem chama de "inimiga".

Em entrevista ao programa Poder e Política, da Folha e do UOL, Paulinho da Força Sindical (como é conhecido por presidir essa central de trabalhadores) afirmou que a tendência do Solidariedade é oferecer apoio à candidatura presidencial do senador Aécio Neves (PSDB-MG). E Dilma? "Não fez nada. Não cumpriu uma [promessa]. Nenhuma. E virou minha inimiga dois dias depois que foi eleita", declarou.

Durante a entrevista, o político de 57 anos fez inúmeras críticas à presidente e ao governo federal petista. "Ela [Dilma] vive hoje da fama que o Lula tinha nessa área [sindical]. Você pode ver.

O discurso dela é: 'Porque o Lula fez, o Lula fez'. Pergunte o que ela fez? Ela não fez coisa nenhuma. Para os trabalhadores, não".

Paulinho cita compromissos que a petista fez durante a campanha eleitoral de 2010 com várias centrais sindicais. Por exemplo, o fim da fórmula conhecida como fator previdenciário para as aposentadorias da iniciativa privada. "Ela se comprometeu junto com o ex-presidente Lula. E não cumpriu coisa nenhuma. Eu não tenho como apoiar alguém que concorda fazer as coisas para os trabalhadores e no outro dia muda de lado. Ela não é minha mãe".

Antes de romper com o governo, Paulinho relata ter conversado com o padrinho político de Dilma. "Ela abandonou as causas trabalhistas. Eu falei isso para o Lula: 'Lula, não me peça para fazer nada por essa mulher que eu não faço'".

Com a expectativa da adesão de 30 deputados ao Solidariedade, Paulinho acredita que terá cerca de dois minutos de tempo de TV e rádio na propaganda política em 2014. Esse é o principal ativo que pretende colocar à disposição da oposição.

"No que depender de mim o meu partido vai para a oposição", diz ele. Sua preferência é por Aécio Neves –"é muito meu amigo"–, mas o deputado fala também numa outra configuração:

"Vou trabalhar com ideia de fazer um acordo com o Aécio, Eduardo Campos [PSB] e Marina Silva: ter uma grande composição no segundo turno das eleições. Acho que esses três candidatos deveriam ter as condições iguais de disputar as eleições. E, aí, com o acordo de quem for melhor, no segundo turno, ter o apoio dos outros".

Uma possibilidade de Paulinho mudar de opinião seria a volta de Luiz Inácio Lula da Silva como candidato. Mas essa saída seria remota. "Se ele falar hoje que é candidato… ele acaba com o governo da Dilma. Se ele não fala e deixa para mais para frente, as pessoas vão assumindo outros compromissos. Então, ele sabe que está inviabilizado".

Outro reparo que o deputado faz sobre o funcionamento da administração petista inclui o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, comandado pelo petista Fernando Pimentel. "O ministro está mais preocupado em ser governador de Minas Gerais…Já fui lá 30 vezes e esse cara não atende ninguém. Pergunta ao setor industrial o que acontece? Diz que toda hora está falando com a [presidente] Dilma [Rousseff]. Pô, para de mentir. Não é possível que você fala com a Dilma toda hora", diz Paulinho.

Sobre as acusações de fraudes na coleta de assinaturas para criar o Solidariedade, Paulinho repetiu o que vem dizendo: "Foi tudo armado".

A seguir, trechos da entrevista:

Folha/UOL – Qual é o grau de envolvimento do sr. na criação do partido Solidariedade?
Paulo Pereira da Silva – Fizemos uma reunião, em novembro do ano passado, na casa aqui de Brasília do deputado Augusto Coutinho [DEM-PE], com cerca de 10, 12 deputados. Junto também com um grupo de sindicalistas, com [o advogado] Marcílio Duarte, que foi o nosso presidente até este momento. Decidimos criar o partido.
A partir de novembro, nós nos envolvemos nesse trabalho difícil de coleta de assinaturas e de registros do partido nos Estados. Teve o envolvimento de parlamentares, sindicalistas, do movimento sindical e até do MST.
Tivemos a preocupação de não falar demais. Se você fala demais você junta os amigos, mas junta também os adversários.

Qual o peso do apoio no meio sindical para criar o partido?
Tive o apoio de muita militância do movimento sindical, de líderes de fábricas, trabalhadores das fábricas, dos movimentos sociais, das comunidades de base. Dos trabalhadores sem terra, principalmente do Pontal do Paranapanema (SP), muita ajuda do pessoal do Zé Rainha, do João Paulo, que é um dos líderes do MST.

Por que o nome Solidariedade foi escolhido?
Nós tínhamos que criar um partido que tivesse um "T", por causa da minha origem [trabalhismo] e da origem das pessoas que estavam trabalhando, ou um "S"-de social, socialista.
Se você olhar na lista de partidos registrados no TSE, os 'T' e 'S' estão ocupados. Aí um deputado disse: 'Vamos por Solidariedade'.

Quem foi esse deputado?
Foi o Roberto Santiago (PSD-SP). Ele fez a sugestão de por Solidariedade. Ele não virá conosco, mas a sugestão de Solidariedade foi dele.

Tem alguma inspiração no Solidariedade comandado pelo [ex-presidente polonês] Lech Walesa?
Não, foi por falta de opção. Acabou ficando bonito.

O Solidariedade terá uma sigla?
A sigla que no estatuto é SDD. Parece um pouco esse negócio de mata-mosquito. É meio estranho.
SOL ia confundir com PSOL. PS já tem alguém que tinha assumido PS.
Se fosse SD, era só colocar o P para ficar PSD. Então a gente colocou SDD. Mas eu acho que devíamos trabalhar e mudar essa sigla. Solidariedade fica grande, mas também não dá pra gente ter uma sigla que não condiz um pouco com a nossa realidade.

Quando o sr. assume a presidência do Solidariedade?
Essa coisa de assumir a presidência deve ser nos próximos dias, mas nós estamos mais preocupados com quem será candidato em 2014.

Mas já está definido que o sr. assume a presidência do Solidariedade?
O nosso presidente é o Marcílio Duarte, a quem eu quero agradecer muito pelo trabalho que fez até agora. Marcílio é uma pessoa muito correta e muito competente. O acordo que nós tínhamos com ele é que eu assumiria a presidência. Mas já fizemos uma discussão de que ele será o secretário-geral nacional do partido e eu assumirei a presidência.

E isso deve acontecer nas próximas semanas?
Depois do prazo de filiação que termina no dia 5 [de outubro].

Por que durante o processo de criação do Solidariedade o sr. não aparecia formalmente como o principal líder desse novo grupo?
Porque estou num partido. Fui eleito pelo PDT. Se eu assumisse a criação de um partido desde o início eu teria grandes dificuldades dentro do meu partido.

Mas todo mundo já sabia…
Não, não sabia. Foi sabendo. Porque aí todo mundo começou a falar. Eu não podia assumir, não era esse o objetivo. Nós tínhamos colocado o Marcílio exatamente porque ele tinha uma experiência na criação. Eu tenho brincado que ele é o recordista mundial de criador de partido. Ele já criou sete, com esse.

Há uma crítica em relação à criação de partidos no Brasil. Para alguns, existem mais partidos do que seria necessário. Para outros, não. Qual a sua opinião?
Olha, se você pegar os Estados Unidos, me parece que tem mais de 80 partidos…

Qual a diferença entre lá e aqui, além desse número?
Se nós formos comparar com o número da população nós estamos parecidos.

A diferença é que aqui no Brasil os partidos, ao serem criados, já começam a receber dinheiro público. Nos Estados Unidos, não…
Não sei se é isso. Nós não temos esse objetivo de receber dinheiro público. Até porque…

Mas vai receber…
Vai receber porque faz parte do jogo.

Quais serão as duas ou três principais causas que o Solidariedade defenderá?
Uma das principais é acabar com o fator previdenciário. Essa questão é uma questão de honra para nós.

Explique o que é o fator previdenciário.
O fator previdenciário é uma maldita conta que inventaram que pega a aposentadoria da pessoa e derruba 40% quando você vai se aposentar, no mínimo. Se for homem. Se for mulher, vai perder mais.

Estamos tratando do setor privado.
Setor privado.

O governa rebate dizendo que sem o fator previdenciário o déficit da Previdência aumenta. Como o senhor rebate essa crítica?
É conversa fiada do governo. Porque nós estamos oferecendo em troca disso um novo sistema. Não é nem acabar com o fator previdenciário, é manter o fator e criar uma alternativa.

Qual alternativa?
Essa alternativa seria aquela fórmula 85/95. Combina o tempo de trabalho com a idade. Você se aposenta melhor.
Vou dar um exemplo: uma pessoa que começa a trabalhar aos 16 anos, que trabalha em uma única empresa, chegará aos 51 anos com 35 anos de contribuição. Se você somar 35 anos de trabalho com 51 de idade ele vai para 86. Faltariam 9.
Se essa pessoa quiser se aposentar, nós não podemos tirar os direitos de quem quiser se aposentar. Ele se aposenta, mas entra no fator. Se ele não quiser, o que nós estamos propondo é criar esse novo sistema. Aí, na nossa conta, faltariam 9, mas como cada ano de trabalho valem dois –porque é um ano de trabalho e um ano de idade–, faltariam quatro anos e meio. Aí você cria uma regra que vai subindo a aposentadoria da pessoa na medida que ela trabalha mais.
Portanto, o trabalhador vai ficar mais no emprego e vai contribuir mais com a Previdência –e a Previdência vai arrecadar até mais do que hoje.

Nesse seu exemplo, a pessoa começou a trabalhar aos 16 anos e, em tese, poderia se aposentar já aos 51 anos. É justo ter um sistema que permita a aposentadoria de pessoas com 51 anos?
Por isso que nós estamos propondo alternativa. Porque hoje, pode. Cai no fator previdenciário. Perde 40%, mas pode.
O que nós estamos propondo é incentivar o cara a trabalhar mais.

Com o fator esse incentivo não existe?
Não. Se ele ficar trabalhando, vai perder mais ainda, por causa da expectativa de vida. Cada vez que a expectativa de vida sobe, o fator diminui o salário. Quando as pessoas me perguntam, recomendo que se aposentem. Quanto mais você trabalhar, mais você vai perder. Nossa proposta é o contrário: estamos propondo um incentivo para a pessoa ficar trabalhando -e, portanto, arrecadar para Previdência e se aposentar melhor.

Cite outras duas causas que o Solidariedade vai defender.
Estão vindo muitos deputados ligados ao setor empresarial. Acho que temos que pegar essa causa da importação. Isso é um escândalo que vem acontecendo no Brasil. Setores industriais importantes sendo destruídos.

O Solidariedade defenderá impor dificuldades para a importação?
Nós temos que endurecer as regras de importação.

Não é melhor melhorar o ambiente de negócios para as empresas nacionais competirem?
É exatamente isso. Você tem que combinar.
A indústria têxtil no Brasil emprega hoje 1 milhão e 700 mil trabalhadores. Tem que incentivar esse setor a melhorar a tecnologia, produtividade e qualidade. Agora, não pode é quebrar o setor. O que o governo faz hoje é quebrar o setor. E reclamação todos os dias nesse Ministério da Indústria e Comercio não funciona. O ministro está mais preocupado em ser governador de Minas Gerais…

Quem que é o ministro?
Sei lá o nome, eu até esqueci.

Fernando Pimentel, do PT.
É esse aí mesmo. Eu já fui lá 30 vezes e esse cara não atende ninguém. Pergunta ao setor industrial o que acontece?
Eu vou lá e o cara [Fernando Pimentel] diz que toda hora está falando com a [presidente] Dilma [Rousseff]. Está falando com a Dilma… Pô, para de mentir. Não é possível que você fala com a Dilma toda hora. E além disso não atende nenhuma das demandas. Nenhuma, nenhuma.
Eu tive um episódio na época em que eu falava com a Dilma. Levei para ela uns tubinhos que o Brasil produzia. Esses tubos de cosméticos, que as mulheres usam. Aqueles tubinhos eram fabricados por 8 empresas.

Só a embalagem?
Só a embalagem, tubo. Aqueles tubos em que vai o creme dentro. Tínhamos 8 empresas. Em torno de 8 a 9 mil trabalhadores diretos. Para produzir no Brasil, há três anos, custavam R$ 36 cada mil tubinhos. A China estava pondo aqui dentro a R$ 3,50 aquele tubo. O que aconteceu? Levei lá e falei: "Isso aqui é um absurdo!".
Não deu outra. Eu levei duas vezes para a presidente Dilma e na última eu falei publicamente: "Presidente, eu te pedi duas vezes. Não precisa fazer mais nada porque as empresas todas quebraram". Não tem mais nenhum emprego nessa área. Ou seja, em vez de incentivar o nosso, de segurar esse produto pirata que tirava o emprego no Brasil, eles simplesmente deixaram entrar. Talvez por interesses particulares de alguém no ministério…

O Solidariedade vai ser um partido de centro, de direita, ou de esquerda?
Vai ser um partido de centro-esquerda. Não dá para dizer que é de esquerda, mas também não é um partido de centro, porque eu não me considero de centro. Lutei a minha vida inteira do lado das causas populares. Agora, vem gente comigo que está mais no centro. Então, diria que é um partido de centro-esquerda.

O sr. aceitará no seu partido deputados, senadores ou políticos que estão encrencados processos na Justiça?
Não terá problema, não. Importante para mim é o que ele defende. Que esteja defendendo as causas corretas. Porque se fosse pensar nisso, eu não poderia entrar. Eu devo ter uns dez processos. Sou presidente da Força Sindical. A Força Sindical teve processos e eu respondo como presidente. Isso não decide se ele filia ou não. Muitas vezes você tem processo por estar defendendo a coisa certa.

No dia 24 de setembro o TSE aprovou o registro definitivo do Solidariedade…
…Às 22 horas e 22 minutos, segundo o Jorge, meu assessor de imprensa.

…Às 22 horas e 22 minutos e havia 22 deputados presentes nas dependências do TSE, assistindo à sessão. Esses são deputados que entrarão para o Solidariedade?
Achamos que terá mais.

Quantos serão?
De 30 para cima.

Acima de 30?
Acima de 30.

De quais partidos devem sair esses deputados?
Do PDT devem vir uns 5 ou 6. Do PMDB, uns 2 ou 3.

O maior fornecedor de deputados será o PDT?
O maior será o PDT.

Depois, o PMDB?
Não dá para saber.

Mais quais serão os partidos de origens desses deputados?
PMDB, PR, PP, PEN, PHS…

PSD…?
Do PSD devem vir um ou dois. O PSD não perderá muitos deputados como o [Gilberto] Kassab previa.

Do PSB vai alguém para o Solidariedade?
Acho que sim. Um ou dois devem vir. Do PPS deve vir, um ou dois.

Quantos senadores, governadores ou prefeitos?
Até agora, temos um senador acertado, o Vicentinho [Alves] (PR), de Tocantins.

Governadores e vice-governadores, algum?
Nós não conversamos sobre isso. Tive algumas conversas com governadores. Começou a pegar mal essa história. Começaram a dizer que eu estava indo lá vender a legenda e eu parei. Não pode nem conversar…

Houve esse tipo conversa? Foi noticiado que o apoio seria no seguinte sentido: entram alguns deputados, faz-se o acordo e o tempo de TV do partido iria, oficialmente, naquele Estado, para o governador que ajudasse a trazer os deputados.
Esse é o desejo dos governadores.

Como assim?
Porque é tudo muita gente muito esperta. Você sabe por que, normalmente, em uma cidade tem só dois candidatos sempre? Porque o prefeito daquela cidade traz tudo quanto é legenda para o lado dele e a oposição fica lá com dois ou três. No Estado também é assim. Quando começa a surgir um partido com possibilidade de ser registrado, todo o mundo político começa a procurar.

O senhor foi procurado por qual governador?
Ah, foram vários. Não vou falar nomes.

E a oferta era qual? Eu ajudo a colocar deputados no seu partido e em troca você me apoia a minha reeleição?
Em troca eu controlo o partido aqui.
Mas aí eu parei de ir porque estava dando muito problema. Nesses Estados eu percebi que o governador estava querendo controlar.

O Solidariedade deve apoiar a reeleição do governador Geraldo Alckmin, do PSDB?
Exatamente. Nos outros Estados, vamos discutir. Tem que montar ainda os diretórios. Nosso partido não terá comissão provisória. Esse é um grande problema dos partidos.

Qual o prazo para o partido ter direções partidárias estaduais realmente eleitas e com poder de atuação autônomo nos Estados?
Você tem que cumprir estatuto. No início, tudo provisório. Hoje [25.set.2013] nós devemos estar pegando a senha do Filiaweb [sistema do Tribunal Superior Eleitoral para o cadastro de filiados]. Com isso poderemos autorizar as comissões provisórias, para que os Estados possam funcionar para fazer filiações.
Com essa senha, vamos fazer as comissões provisórias nos 27 Estados.

Mas em quanto tempo o senhor acha que terá diretórios e não comissões provisórias?
Acredito que até o final do ano.

Todos serão diretórios estaduais eleitos, e não mais provisórios?
Não mais provisórios. E lógico que poderá decidir o destino do Estado lá, democraticamente decidido por eles.

Durante o processo de criação do Solidariedade, houve várias acusações de fraudes na coleta de assinaturas de apoio ao partido. O que aconteceu?
Não tem fraude. O que tem é que você coleta milhares de assinaturas e encaminha para o cartório.
Não tem um procedimento único no TSE para regulamentar. Tem cartório que exige assinatura do dia que você tirou o título de eleitor. Tem cartório que exige assinatura do dia que você votou…
Muitas vezes você pega assinatura de apoio na rua, das pessoas que estão passando. Essas pessoas assinam de qualquer jeito. Muitas vezes o cara assina até para se livrar de você –"esse cara está me enchendo o saco vou assinar aqui".
A tendência é chegar no cartório e várias dessas assinaturas não conferirem. E tem muitos lugares que o cartorário tem lado. Entendeu? Dá para ver claramente, durante o processo, o lado dele.

Tem lado, como? Tem preferência partidária?
Tem preferência partidária. Isso porque eu não disse que era eu. Se eu tivesse dito que era eu desde o início teria sido bem pior. Você está vendo com a Marina. Porque aí os lados começam a agir desde lá debaixo. E, muitas vezes, os seus adversários também agem. Você está em uma cidade coletando assinaturas, chega alguém te da lá 10, 20 assinaturas e você: "Legal, o cara está me trazendo". Muitas vezes essas 10, 20 assinaturas são de gente só para te sacanear na frente, como aconteceu comigo.

Houve casos até de assinaturas fraudadas de chefes de cartório…
Vamos pegar esse caso. Várzea Paulista. A denúncia saiu na Folha. Várzea Paulista é uma cidadezinha ao lado de Jundiaí. Nós pegamos na cidade 168 assinaturas. Seria muito imbecil que falsificasse assinatura do dono do cartório. Então, eu só posso dizer que isso é coisa armada. Coisa armada na cidade, já preparada para denunciar, entendeu?

Alguém infiltrado colocou lá uma assinatura do dono do cartório para dizer depois que houve a fraude?
Só pode.

Em Brasília, houve a acusação da utilização indevida da lista de filiados a um sindicato, o Sindilegis (Sindicato dos Servidores do Poder Legislativo Federal e Tribunal de Contas da União). O que aconteceu?
Em Brasília, é muito claro. Aqui em Brasília, no Sindilegis, lá atrás, eu apoiei uma pessoa chamada Magno [Antonio Correia de Mello] para ser presidente do sindicato, do Sindilegis. Ele ganhou. Fez um péssimo trabalho. Ninguém aguentava mais ele. Tanto que teve cinco chapas nas eleições passadas. Eu apoiei uma chapa de um outro companheiro, que é o Nilton Paixão. A chapa do Nilton Paixão ganhou.
Além disso, para ajudar, a mulher desse rapaz [Magno] trabalhava no meu gabinete. Quando eu cheguei aqui, há sete anos, eu tinha apoiado a chapa deles, a Força Sindical tinha apoiado. Eles me indicaram uma assessora para trabalhar no gabinete. Combinado, era a mulher dele.

Combinado como?
O cara indica a mulher, né? Só fui descobrir que era a mulher dele depois. Teve alguns problemas e eu demiti a mulher dele. Por isso ele virou meu inimigo.
Agora, o problema não é aí. O problema é que nós estamos mexendo com coisas maiores do que isso. Quando você cria um partido, numa hora dessas, você muda o jogo eleitoral de 2014. Havia grandes interesses envolvidos. Os Poderes todos envolvidos. Eu sei que o Palácio do Planalto se envolveu nisso para impedir.
Eu sei que as denúncias, as supostas denúncias de fraude, eram muito direcionadas, muito bem feitinhas.

Por que o senhor quis sair do PDT?
Nunca quis sair do PDT.

Mas está saindo?
Estou saindo. Estou me desfiliando [do PDT] hoje [25.set.2013] e me filiando ao Solidariedade hoje mesmo. Eu nunca quis. Como esse grupo de parlamentares me chamou. Eu tinha muita crítica ao modelo de administração do PDT.

Como funciona o PDT?
Não dá para administrar um partido só com comissão provisória. O PDT tem nove diretórios, só o que a lei manda. E mesmo para fazer esses diretórios tem que ter autorização da direção nacional. Mesmo para renovar. Se a direção nacional não te der, você não renova. É um partido comandado por gente que não tem voto.
Isso vai criando um clima de insatisfação nos parlamentares. Esse modelo que aprendi dentro do PDT eu quero fazer completamente diferente no Solidariedade.

O PDT vai sobreviver?
Acho que vai, porque tem história. Mas vai minguar muito por causa desse tipo de administração.

A presidente Dilma Rousseff esteve envolvida nessa operação [para impedir a criação do Solidariedade]?
Eu acho que teve.

Há informação objetiva sobre isso?
Ah, tem.

Conte então.
Eu vou contar essa história toda aqui, está doido?
Nós tivemos sete pareceres do Ministério Público favoráveis e aí vem um outro, indicado pela presidente Dilma, que faz um parecer contrário.

O senhor está se referindo ao vice-procurador eleitoral, o [Eugênio] Aragão?
Eu falei e vou repetir: esse relatório dele foi encomendado pelo Palácio do Planalto.

Mas ele foi indicado pelo procurador-geral [Rodrigo] Janot.
Pega o histórico de quem eu estou falando, o Aragão. Pega o histórico dele. Você vai ver quem ele é.

Dilma determinou diretamente [que fosse feita pressão contra o Solidariedade]?
Não sei, mas deve ter sido.

Ela aprovou essa operação?
Teve um desespero no Planalto na hora que o PSB decidiu sair do governo. A história do PT foi com o PDT, PC do B e o PSB. Quando eles [PT] casaram com o PMDB, esses três aliados históricos ficaram de lado. Quem mais tem coragem, como o Eduardo Campos [governador de Pernambuco e presidente nacional do PSB], rompe com o governo antes da hora. A Marina [Silva] criando um partido e em segundo lugar nas pesquisas. E um outro partido [o Solidariedade] do qual eles tinham dúvidas, por causa da minha posição com relação à presidente Dilma. Tinha toda uma pressão ali do Palácio e o medo de 2014.

A presidente Dilma não desejava a criação do seu partido?
Eu acho. Eu acho, não. Tenho certeza.

Em 2014 a chance de o Solidariedade apoiar a reeleição da presidente Dilma é pequena?
Se depender de mim, nenhuma. Só que agora eu vou ter de falar como presidente de um partido. Meu partido tem muita gente que hoje está na base do governo.

Então, como vai ser?
Nós vamos ter de discutir isso aí internamente.

Tem chance de apoiar Dilma?
Se depender de mim, não. No que depender de mim o meu partido vai para a oposição.

Quem o Solidariedade pode apoiar para presidente?
Eu tenho uma grande relação com a Marina [Silva], com o Eduardo Campos. Mas muito boa relação com o senador Aécio Neves [PSDB-MG].

A possibilidade maior é de apoiar Aécio Neves, do PSDB…
Até porque o Aécio é muito meu amigo. Desde quando ele era apenas deputado.
Tenho uma grande relação com ele e as pessoas já dizem que nós já estaríamos nesse embalo. Ele pode ser o nosso candidato.

O sr. vai trabalhar para isso?
Vou trabalhar com ideia de fazer um acordo com o Aécio, Eduardo Campos e Marina: ter uma grande composição no segundo turno das eleições. Acho que esses três candidatos deveriam ter as condições iguais de disputar as eleições. E, aí, com o acordo de quem for melhor, no segundo turno, ter o apoio dos outros.

Como é essa igualdade de condições?
Para disputar a eleição no Brasil, não adianta você só ficar andando na rua, fazendo comício, discussão ou reunião. Tem que ter tempo de rádio e de televisão. Nós teríamos de ter a capacidade de dar essa condição para cada um dos três candidatos [de oposição].

O tempo de TV distribuído entre os três?
Exatamente.
Vamos supor que essa guerra contra a Marina não deixe ela ter um partido, que é o sonho dela. A gente poderia verificar as possibilidades de ela ir para um ou para outro desde que tivesse esse acordo.

Ou seja, o Solidariedade trabalhará para ter mais candidatos de oposição competitivos contra a reeleição de Dilma?
Essa é a minha ideia.

O que a presidente poderia fazer para trazê-lo de volta ao governo?
Eu sou sindicalista e estou deputado. Eu tenho um lado. Eu defendo os trabalhadores.
No segundo mandato do presidente Lula, ele tratou muito bem o movimento sindical. Tão bem que no final disse assim: 'Paulinho, você apoia a Dilma?'. E eu falei: 'Apoio'. Ele chegou a dizer para a presidente Dilma o seguinte: 'Você conseguiu o que eu nunca consegui: que as seis centrais sindicais te apoiassem'.
Ela fez um acordo dentro do prédio dos metalúrgicos de São Paulo, com as seis centrais sindicais. Ela iria acabar com o fator previdenciário, reduzir a jornada de trabalho para 40 horas semanais, fazer uma política salarial para os aposentados, uma tabela de correção do Imposto de Renda com o menor salário todos os meses, correta. E ela não fez. Ela assumiu uma série [de compromissos]. Ela ia fazer os 10% do PIB para a educação, 10% do PIB para a saúde…

Não fez o que prometeu?
Não fez nada. Não cumpriu uma [promessa]. Nenhuma. E virou minha inimiga dois dias depois que foi eleita. Por quê? O salário mínimo de 2010, por causa do PIB de 2008, não ia crescer nada. Eu fiz uma emenda propondo uma antecipação de R$ 25 do salário mínimo porque o [aumento do] salário de 2011 ia ser grande por causa do PIB de 2009. Ia ser 14%. Eu disse numa reunião com ela: 'Presidente, é um erro o que você está fazendo. Este ano não sobe nada e no ano que vem sobe 14%. Vai penalizar as pessoas que vão ter que pagar, inclusive, esse aumento em 2011. Vamos antecipar'. Fiz aquela emenda minha na medida provisória dela. E ela virou minha inimiga por causa disso. A partir dali, não cumpriu nada. Ela mudou. Na verdade, ela já tinha mudado.

Hoje, Dilma é inimiga sua?
Eu acho que sim. Não chama mais as centrais, não reúne, não conversa.

Por que ela não cumpriu esses acordos com as centrais?
Porque eu acho que ela não entende disso. Ela nunca esteve deste lado mesmo. Ela vive hoje da fama que o Lula tinha nessa área. Você pode ver o discurso dela é: 'Porque o Lula fez, o Lula fez'. Pergunte o que ela fez? Ela não fez coisa nenhuma. Para os trabalhadores, não.

Ela fez esse acordo na campanha de 2010?
No segundo turno das eleições ela ficou dois dias dentro do prédio da Força Sindical, com reuniões em todo quanto é andar. Eu tomei R$ 37 mil de multa por causa dela. Por usar a estrutura do sindicato. Ela se comprometeu junto com o Lula. E não cumpriu coisa nenhuma. Eu não tenho como apoiar alguém que concorda de fazer as coisas para os trabalhadores e no outro dia muda de lado. Ela não é minha mãe.

Foi um ato de traição? O que é?
Não sei o que dá para qualificar. Ela abandonou as causas trabalhistas. Eu falei isso para o Lula: 'Lula, não me peça para fazer nada por essa mulher que eu não faço".

Se o ex-presidente Lula fosse candidato a presidente aí as coisas seriam diferentes?
Eu acho que seriam. Eu cheguei dizer isso para ele.

Mas a chance de Lula candidato em 2014 não existe…?
Não existe. Se ele falar hoje que é candidato… ele acaba com o governo da Dilma. Se ele não fala e deixa para mais para frente, as pessoas vão assumindo outros compromissos. Então, ele sabe que está inviabilizado.

Quanto tempo de TV o Solidariedade deve ter em 2014?
Acho que em torno de dois minutos.

É um déficit grande que vai ser imposto à aliança do lado governista… Quem estará com Dilma em 2014?
Eu não sei se o PDT apoia ela… O [Carlos] Lupi [presidente nacional do PDT] tem uma grande relação com o Aécio, com o Eduardo Campos.

Mas, por outro lado, Dilma deve ter o apoio do PSD…
Será que tem? Vamos ver, né?

Isso é o que tem Gilberto Kassab…
É… Mas vamos ver. Vamos acompanhar. Só posso dizer isso no final [risos]. Muitas coisas vão acontecer ainda daqui até junho de 2014.

Fonte: site da Folha de S.Paulo