Comemorar o golpe militar é esquecer os anos terríveis vividos pelos brasileiros

No dia 31 de março de 1964, o Brasil começou a escrever uma página triste de sua história, com o golpe militar. O regime foi iniciado com a deposição do presidente João Goulart. Logo depois, foi estabelecida a censura à imprensa e às artes; restrição aos direitos políticos, perseguição policial aos opositores do regime e muitos assassinatos. Com o Ato Institucional número cinco (AI-5), em 1968, a repressão ficou ainda mais violenta.

Essa data deve ser lembrada com tristeza por todos os brasileiros. É uma mancha no nosso calendário. É uma ferida que até hoje está aberta, pois ainda temos muitos desaparecidos políticos. Estima-se em mais de 400. Temos muitas famílias que não sabem o paradeiro de entes queridos, que lutavam por um país democrático.

Mas, em vez de querer combater atos autoritários, o presidente da república Jair Bolsonaro quer celebrar. O que temos para festejar? Essa atitude do presidente demonstra a sua falta de sensibilidade com pais e mães que perderam os seus filhos ou os viram ser torturados; com homens e mulheres que ficaram viúvos ou viúvas e crianças que se tornaram órfãs.

Foram 21 anos de escuridão no Brasil. Duas décadas de perseguição. E os trabalhadores também sofreram. Muitos foram mortos só por exigirem melhores condições salariais. Entre os crimes cometidos durante o regime contra quem lutava por direitos trabalhistas estavam intervenções em sindicatos, demissões de funcionários que participavam de manifestações, perseguições, torturas e mortes.

Como podemos comemorar algo assim? Ao contrário disso, podíamos conscientizar a população sobre os fatos históricos; homenagear pessoas que enfrentaram o regime em nome da democracia.

O presidente Jair Bolsonaro deve lembrar que só está sentado na cadeira presidencial graças ao regime democrático, que parece desprezar. As eleições diretas permitiram que ele estivesse no cargo mais alto do país, não para homenagear torturadores e à ditadura, mas para garantir a permanência da liberdade de expressão, do direito de ir e vir e os direitos políticos de cada cidadão.

O golpe militar precisa ser lembrado como um momento terrível para o Brasil. Mas, não só isso, o governo precisa punir os responsáveis pelos crimes cometidos. Devemos isso a todos que foram torturados e que morreram em defesa da democracia.

O Solidariedade tem trabalhado constante para a consagração dos princípios democráticos no Brasil, por isso, repudia a ação do Presidente em celebrar uma ditadura militar que causou sofrimento indescritível a milhares de brasileiros. Ouvir, ainda, militares pedindo moderação nas comemorações, só mostra o equívoco que o chefe do executivo está cometendo.