Carnaval, festa para todos e as visões morais de alguns

“Penitenziagite” diziam os dolcianos na idade média revoltados com a riqueza temporal eclesiástica. No entanto, cegos pela própria crítica do seu fundador Frei Dolcino, estes não apenas acreditavam que a pobreza franciscana era uma virtude e opção, como também uma verdade fundamental para a vida cristã. Todo aquele que não estivesse inserido deveria morrer. Logo se tornaram matadores de padres e freis.

Este modo de pensar e agir mostra esta dimensão que homens e mulheres têm em que o olhar crítico da sociedade pode os levar ao extremo e, neste caso, o olhar oriundo de um messianismo no qual a urgência para salvar-se leva ao extremo do querer salvar não somente a si, mas o seu modo de ser e ver o mundo, desta maneira todo aquele que não compactua para com esta visão deve converter-se ou ser desprezado.

Esta atitude humana se mostra em diferentes épocas e costumes, alterando-se o olhar seja ela religiosa ou política e mesmo com o advento do estado de democracia liberal percebe-se algumas atitudes semelhantes seja ela em guerrilhas da esquerda ou no temor neurótico que há de um comunismo insistente que se encontra somente na cabeça da direita brasileira.

Dito isto, é necessário olhar para o que acontece no Rio de Janeiro e o modo do governo para com o carnaval. Parece que o governante não compreende a estrutura do momento em que o País se insere e as estruturas que necessariamente mantém este período de festividade; saindo do foco que tanto se discutiu e se discuti sobre a origem da festa e sua etimologia, o Carnaval o que aqui interessa é a sua capacidade de inserir pessoas comuns num ambiente moderno e frenético que é as cidades hodiernas com seus prédios que ofuscam a paisagem natural e o predomínio da insensibilidade á festividade popular. Algo que se esquiva num período no qual forças inconscientes e estágios mercadológicos conscientes se apropriam destas para o momentâneo estar de alegria festiva. Por sua vez não se deve cair na ingenuidade de não se perceber nos desvios ocorridos neste breve período, pois é um estagio do individuo incluso numa massa para vivenciar estruturas psíquicas e sociais que não são possíveis no mundo inserido, por exemplo, as fantasias em que homens se vestem de mulheres e vice-versa.

No entanto, estas características ultimamente têm sido colocadas em Mídia como o momento atual de extremos em que o País se insere é o famoso flaflu do hodierno momento político social brasileiro. Neste caso, o Rio de Janeiro com seu Bispo ou prefeito? Que não tem demonstrado ser constitucionalmente claro, pois se é governante de Estado é compreendido a ser de todos e por isso claro nas prerrogativas da laicidade do mesmo, dito isto suas falas e comentários e mesmo atitudes relegam o carnaval há um estágio de loucura desnecessária e que nada tem com o governo estabelecido. Pobre pensar, pois nem na Idade Média mesmo com críticas muitas vezes ferozes como de religiosos tais quais os atuais e moralistas, o carnaval era incluso em um momento que se insere no contexto de alegria e muitas delas críticas dentro de suas músicas e teatros nos quais bispos e senhores de terras eram colocados como homens gordos na sua cobiça e glutões diante de algumas misérias entre o povo.

Por isso assemelha-se o movimento dos dolcianos há certa maneira de ver o aspecto de uma moralidade em que, se não está comigo está contra a mim, porém com a ressalva que o do Crivella é ao distingui na formulação teológica dolciniana, pois em certos aspectos da fé do prefeito todo aquele que não é rico ou busca enriquecer ou está fora da graça e é inútil ou deve ser levado há um templo na capital do mercado brasileiro e lá elevar-se na condição de fiel na busca de favor do Deus dos favores bancários.

Deste modo é necessário entender que a justa medida é a correlação exata para um sistema saudável no âmbito da política pública e ademais numa extensão de uma festividade que é inserida no calendário milenar pelas perspectivas religiosas e inconscientes da comunidade humana; ela não termina na loucura externizada, mas na reflexão pós balburdia, da quarta de cinzas. Deste modo é claro que o dito penitenziagite é colocado para mostrar que entre a boa visão e a boa ação há uma fina camada de racionalidade que poder levar há política justa ou há uma infinidade de preconceitos e aberrações no conduzir a humanidade. Por isso não há um carnaval, há a festa de o carnaval onde o transgredir inconsciente vem organizado na massa e definido no possível das varias maneiras de alegrar-se e constituir-se entre os demais no transbordar-se da euforia, com o limite pré-fixado da própria sociedade e do viés religioso que ela se enquadra, na quarta feira lembrarás ela da fragilidade e por isso da finitude da existência humana, pois do pó feito ao pó voltará. Festa cíclica onde se alegra para permanecer na sociedade silenciosa e suas dores do indivíduo no rigor do cumprimento do contrato de se viver em sociedade.

Por isso, a festa da carne (psicológica e cultural) requer o olhar de um D. Helder durante mensagem radiofônica da radio de Olinda AM em 1 de fevereiro de 1975, “ carnaval é alegria popular. Direi mesmo uma das raras alegrias que ainda sobram para minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Brinque, meu povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que na quarta-feira a luta recomeça, mas ao menos se pôs um pouco de sonho na realidade da vida dura.”

Referências 

Idade Media Bárbaros Cristãos e Muçulmanos, organização Umberto Eco; editora, Dom Quixote, 2011, Portugal
Freud Sigmund, o mal estar na civilização, novas conferencias introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1939) tradução Paulo Cesar de Souza, são Paulo Cia das letras editora, 2010

Autor: Alexsandro Santos – Secretário Estadual da Secretaria da Liberdade de Expressão Religiosa e Filosófica – SP