Cenários doméstico e internacional afetam balança comercial do Brasil – DCI

A lenta evolução da economia doméstica e a desaceleração mundial afetou o comércio do Brasil. No primeiro trimestre deste ano, o saldo da balança comercial caiu 13,9% em relação a igual período de 2018, de US$ 12,2 bilhões para um total de US$ 10,5 bilhões.

Os dados são do Indicador do Comércio Exterior (Icomex), divulgados na última sexta-feira pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Em março, o saldo da balança comercial ficou em R$ 5 bilhões. Em valor, as exportações recuaram 10,2% e as importações caíram 4,9% na comparação entre o mês passado e igual período de 2018.

De acordo com a pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV Lia Valls, os números observados até agora refletem muito do que se tem observado na economia mundial.

“Uma coisa que chama a atenção, por exemplo, é o volume exportado para Argentina no primeiro trimestre, vinculada à questão da recessão daquele país. Da outra ponta, temos um aumento nas exportações para os Estados Unidos no período, para onde temos exportado produtos menos elaborados”, comenta.

Segundo o Icomex, o desempenho com a Argentina passou de um superávit de US$ 2 bilhões no primeiro trimestre de 2018 para um déficit de US$ 334 milhões nos primeiros três meses deste ano.

O índice também relaciona a queda no superávit total com o menor saldo com a China (de US$ 4,1 bilhões para US$ 3,3 bilhões), com a América do Sul (excluindo a Argentina) que foi de US$ 2,5 bilhões para US$ 1,8 bilhão) e com a União Europeia (UE), de US$ 2,9 bilhões para US$ 1,2 bilhão, na mesma base de comparação.

No caso positivo, a balança com os Estados Unidos saiu de um déficit de US$ 538 milhões para um superávit de US$ 185 milhões e com o Oriente Médio, o resultado saiu de US$ 1,1 bilhão para US$ 1,7 bilhão. O maior ganho foi com os países asiáticos (exceto China), onde no lugar do déficit de US$ 260 milhões, foi visto um superávit de US$ 1,2 bilhão.

Segundo o professor de economia da Faculdade Armando Álvares Penteado (Faap) Johnny Silva Mendes, o cenário de incertezas em relação à recuperação da indústria brasileira e aos possíveis resultados em relação à saída do Reino Unido da UE e quanto à guerra comercial entre EUA e China também influenciam nas expectativas para o segmento.

“A situação de melhora será mais lenta. Aqui dentro, temos diversas discussões sobre várias reformas necessárias e que sinalizam para o setor externo uma visão positiva, o que pode trazer maiores volumes de exportação. Mas todas são questões mais de médio prazo”, avalia o especialista.

Já segundo o professor de economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Roland Veras Saldanha Junior, outro fator que influenciou o resultado do Icomex no primeiro trimestre deste ano foi a taxa de câmbio.

“A expectativa daqui pra frente é de que a liberalização sinalizada pelo governo derrube um pouco das proteções comerciais que são abusivas e foram adquiridas nas gestões passadas. Isso significa que, no âmbito do comércio, se as condições internacionais forem adequadas, podemos exportar volumes bem maiores do que os observados até agora”, acrescenta Saldanha Junior.

Sinais truncados

Da outra ponta, os especialistas entrevistados pelo DCI reiteram as incertezas trazidas pelos “sinais truncados” do governo de Jair Bolsonaro.

“A dissociação que vemos entre a política externa e a política de comércio e econômica podem acabar complicando as relações externas”, adverte Valls, do Ibre/FGV.

“É uma situação delicada porque, apesar do nosso maior comprador ser a China, por exemplo, o caminho de expansão que parece ser prioritário para esse governo é o de aproximação dos EUA. É preciso cuidado para não perdermos o mercado chinês. Mas com a liberalização econômica e de decisões acertadas, temos muito potencial ”, complementa Saldanha Junior.

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